TwittBullying

agosto 31, 2009

"Quantas vezes preciso dizer? Use a pontuação correta!"

Vocês já perceberam que no twitter  o valor de alguém se mede pela sua capacidade de demonstrar inteligência? Isso deveria ser bom, não é mesmo? Mas não é. Perceba que eu disse “capacidade de demonstrar”.  A habilidade em se auto-promover, em se insinuar inteligente a qualquer custo, em prejuízo de quem quer que seja, se tornou moeda que compra muitos seguidores por aqui. Há muitas falhas nesse sistema. Primeiro é preciso entender que existem vários tipos de inteligência. Um cara pode ser muito inteligente numa área e uma negação em outra. E é bom que seja assim, porque isso transforma a raça humana em  um imenso quebra-cabeças, onde a habilidade do outro pode ser a peça que te completa. Se todos fôssemos excelentes pintores, quem ia ligar para a obra de um Rembrandt? Quem iria a um estádio, se emocionar com o futebol de um Ronaldo, se pudesse fazer o mesmo no campinho do condomínio? “Miles Davis? Dá um tempo, cara! Isso que ele chama de Cool Jazz é só uma desculpa pra quem não tem velocidade pra tocar o bebop, como eu!” diria um anônimo qualquer, que tivesse todos os dons do mundo.E a inteligência que mais vemos hoje no twitter é do tipo mais nocivo: a inteligência mordaz, ácida, ligeira para formular sentenças cortantes. É o sarcasmo pensado, ensaiado e repetido, até se tornar quase uma habilidade natural. É o comentário carregado de veneno, em relação a todo e qualquer assunto,  condensado, espremido pela limitação de caracteres, tornando-o ainda mais agudo e doloroso para quem o recebe. E quem acaba, cedo ou tarde, experimentando, são justamente aqueles, que , nessa terra de palavras,  são os fracos. Se o indivíduo não domina  todos os recursos da linguagem, é o suficiente pra ser considerado um pária, um alvo, um Judas de Semana Santa (ou de “follow Friday” profano, vá lá). Troque uma cedilha por dois esses, erre uma crase, esqueça uma vírgula e vai aparecer um inquisidor pra te chamar de burro, o que na teologia do twitter, equivale a ser chamado de herege. O microblog tem seus próprios dogmas e sua doutrina admite um politeísmo competitivo, onde deuses ególatras, claro,  se erguem para apontar os infiéis a serem apedrejados por sacrilégio gramatical. Essas divindades costumam ser pessoas com alguma projeção no campo intelectual, algumas vezes, probloggers, notadamente inteligentes, ou disfarçadamente ignorantes, que se tornaram populares por expressarem com desenvoltura e acidez as suas idéias. Esses indivíduos, sempre muito lidos e comentados, agregam atrás de si uma quantidade imensa de “seguidores” e vestem mesmo a carapuça messiânica. Os súditos, por sua vez, tendem a imitar os seus senhores e o que se vê é um festival de retweets e bajulação desmedida. Uma perseguição aos estúpidos e broncos e a todos aqueles que, mesmo sendo muito bons em suas áreas, não se destacam no campo da escrita. E a coisa descamba para o lado do ridículo. Os seguidores se tornam o verdadeiro estereótipo do puxa-saco. Experimente fazer uma observação contrária a alguma idéia defendida por uma dessas divindades. No momento em que ele te esmagar com sarcasmo, diversos personagens menos brilhantes retwittarão  suas mensagens, acrescentando comentários zombeteiros e entupirão suas caixas de mensagens com reiterações (sempre menos brilhantes) de idéias do mestre. Não foram poucas as vezes em que eu vi essas pessoas darem print screen em postagens de “hereges” e mandarem os links para seus idolatrados pastores, onde a lista de comentários sarcásticos cada vez mais era inflada, e os escarnecedores e auto-proclamados intelectuais, riam da limitação alheia, defendendo os que, notadamente, não precisam de defesa, pois estão certos de que, mesmo se o mundo todo estivesse contra eles, só significaria que o planeta está cheio de idiotas. Eu pergunto: a troco de que? O que ganham esses masturbadores de ego, que mendigam dia e noite um reply, um retwitt ou mesmo uma mera citação, ainda que não creditada? Não se ascende na vida pisando nos outros, ainda que, aparentemente, os violentos estejam vencendo. Porque é justamente disso que se trata: violência. Se trata de se aproveitar de recursos intelectuais para esmagar, violentar o outro. Se trata de usar um dom para se fazer, (se fingir ) superior. Se trata de covardia. Porque “não há covardia maior do que testar a própria força, na fraqueza do outro” (Maomé).

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